Ao ouvir o som da Fragile Arm
percebe-se um trabalho de um artista ousado que está buscando
um caminho, uma forma de expressão que permita que o público
também se identifique com o teor das letras ou apenas à
complexa união entre eletrônica e rock. Entretanto, o
fato mais surpreendente é que isso tudo brota da mente de um
jovem de apenas dezessete anos.
Filipe Freitas, o Miu como é conhecido, herdou
de seus pais o interesse pela música e aos onze anos ganhou
de presente um violoncelo! Convenhamos, quanto garotos nessa faixa
etária pedem tal instrumento de presente? Três anos depois
esse garoto se interessava pelas guitarras e a partir desse momento
começava a compor as canções embrionárias
da Fragile Arm.
Influenciado por artistas e bandas como Nine
Inch Nails, Smashing Pumpkins, Placebo
e a competente banda curitibana Lonely Nerds’ Songbox,
Miu também nos surpreende ao revelar sua admiração
pela banda paulistana Dance of Days, que possui uma
sonoridade completamente distinta de suas outras referências.
Porém, as influencias não se restringem a música,
a literatura também ocupa significativo espaço na vida
desse artista que na sua lista de três livros mais importantes
cita obras como: Cem anos de solidão, de Gabriel
García Márquez; On the Road, de
Jack Kerouac e Uma Sombra passou por aqui,
de Ray Bradbury.
Essa união entre uma sonoridade complexa
e a literatura resulta em músicas autobiográficas cujo
forte teor confessional impressiona. Com letras que abordam temas
como a desilusão, a solidão e conflitos pessoais , a
Fragile Arm consegue expressar em suas harmonias
uma desesperança tão comum no universo cosmopolita em
que está inserida. Mas não é uma simples desesperança
de quem já se cansou de tentar, de esperar. Miu extravasa suas
emoções e, em diversos momentos, cria-se um pacto entre
o ouvinte e as músicas, fazendo com que a audição
de cada faixa soe como revelações de segredos há
tanto tempo guardados.
Com um trabalho interessante e um árduo processo
de divulgação, sobretudo em comunidades do Orkut, a
Fragile Arm foi conquistando aqueles que seriam
os seus primeiros “fãs”, e superando, inclusive,
as expectativas de Miu, as canções começaram
a atingir cada vez mais pessoas, sendo executada no programa Ya
Dog na MTV. Tal “façanha” poderia ser
considerada como o ápice da carreira de 90% dos jovens artistas,
mas esse garoto paulistano vem demonstrando que pode ir além
e o convite para escrever a trilha sonora do filme Bellini
e o Demônio, baseado na obra homônima de Tony
Bellotto (guitarrista da banda Titãs),
comprova tal fato.
Assim que finalizar o processo de composição
da trilha, Miu deve voltar a trabalhar nas músicas que em breve
serão disponibilizadas na rede, contando com a ajuda da amiga
Karina Guerra, que participa de várias canções
da Fragile Arm .
A fragilidade exposta
As
canções da banda podem ser encontradas no myspace e
em um EP que foi lançado pela Midsummer Madness
em 2007. Com o sugestivo nome de Waiting for the man of sorrows,
este EP apresenta seis canções que descrevem eficientemente
o trabalho da banda.
Num primeiro momento, as faixas podem soar estranhas
e até mesmo confusas, entretanto, à medida que as faixas
vão se sucedendo, percebe-se que o que era estranheza torna-se
próximo e a diversidade de sons presentes no trabalho vai,
aos poucos, nos conduzindo por um caminho que o autor deseja que percorramos.
E essas trilhas são sinuosas, obscuras, sujas, pertencentes
a mundo cinzento e caótico. Nesse ponto percebe-se uma das
maiores virtudes da obra dessa “one man band” ao implicitamente
questionar: até onde você pretende ir para conhecer seu
lado mais obscuro?
Abrindo o cd, a labiríntica Missing
hipnotiza os ouvintes com sua harmonia cíclica, mas que nunca
nos parece maçante. Miu se encarrega de evitar que isso ocorra
com uma voz modulada que admite as perdas num tom desolado e cínico
(“would you come today to save me?would you come today to
rape me?”)
Em For C. (my only and truly) guitarras
e uma simples linha de baixo revelam mais do aspecto roqueiro da obra
da Fragile Arm . A desilusão e os conflitos
íntimos continuam sendo escancarados em versos como “i
just keep on lying and smiling/i dont want to see me crying”.
O ponto alto desse trabalho fica por conta da ótima
Parallel Lines Never Meet. Se nas faixas anteriores havia
um desolamento com certo tom arrogante, nesta canção
o eu-lírico da canção admite a sua real fragilidade(“i´m
givin´up, yes, i´m givin´up again of...everything
that i should believe”). Orgy e Sleep completam
os cenários que Filipe cuidosamente preparou para “narrar”
suas histórias.
Encerrando esta compilação,a faixa
Nevermind surpreende por revelar a bela voz de Karina
Guerra em sua única participação nesse
EP. Além de conferir uma delicadeza à canção,
sua espontaneidade no diálogo inserido na música
confirma que a Fragile Arm é um projeto
de muita maturidade musical, caracterizando-se também pela
naturalidade de uma juventude que, contrariando a opinião geral,
sabe aonde quer chegar.
Outras canções estão disponíveis
apenas no já citado myspace da banda. Esse é o caso
das ótimas Bomb Threat com uma guitarra com um timbre
que poderia perfeitamente estar em uma das músicas da banda
de Brian Molko e de Spin ( a mais indicada
para quem busca algo que seja mais próximo de uma canção
pop) na qual, as guitarras e a batida sugerem, inclusive, um tom radiofônico
à canção. Através dessas músicas
é possível compreender um pouco melhor o trabalho desse
artista e seu processo quase compulsivo de composição
que ainda deixa latente a pergunta: você realmente quer conhecer
seu lado mais obscuro?
Informações:
Myspace da Fragile Arm
Comunidade no Orkut