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Fragile Arm

Marcel Alan
06/02/2008

Ao ouvir o som da Fragile Arm percebe-se um trabalho de um artista ousado que está buscando um caminho, uma forma de expressão que permita que o público também se identifique com o teor das letras ou apenas à complexa união entre eletrônica e rock. Entretanto, o fato mais surpreendente é que isso tudo brota da mente de um jovem de apenas dezessete anos.

Filipe Freitas, o Miu como é conhecido, herdou de seus pais o interesse pela música e aos onze anos ganhou de presente um violoncelo! Convenhamos, quanto garotos nessa faixa etária pedem tal instrumento de presente? Três anos depois esse garoto se interessava pelas guitarras e a partir desse momento começava a compor as canções embrionárias da Fragile Arm.

Influenciado por artistas e bandas como Nine Inch Nails, Smashing Pumpkins, Placebo e a competente banda curitibana Lonely Nerds’ Songbox, Miu também nos surpreende ao revelar sua admiração pela banda paulistana Dance of Days, que possui uma sonoridade completamente distinta de suas outras referências. Porém, as influencias não se restringem a música, a literatura também ocupa significativo espaço na vida desse artista que na sua lista de três livros mais importantes cita obras como: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; On the Road, de Jack Kerouac e Uma Sombra passou por aqui, de Ray Bradbury.

Essa união entre uma sonoridade complexa e a literatura resulta em músicas autobiográficas cujo forte teor confessional impressiona. Com letras que abordam temas como a desilusão, a solidão e conflitos pessoais , a Fragile Arm consegue expressar em suas harmonias uma desesperança tão comum no universo cosmopolita em que está inserida. Mas não é uma simples desesperança de quem já se cansou de tentar, de esperar. Miu extravasa suas emoções e, em diversos momentos, cria-se um pacto entre o ouvinte e as músicas, fazendo com que a audição de cada faixa soe como revelações de segredos há tanto tempo guardados.

Com um trabalho interessante e um árduo processo de divulgação, sobretudo em comunidades do Orkut, a Fragile Arm foi conquistando aqueles que seriam os seus primeiros “fãs”, e superando, inclusive, as expectativas de Miu, as canções começaram a atingir cada vez mais pessoas, sendo executada no programa Ya Dog na MTV. Tal “façanha” poderia ser considerada como o ápice da carreira de 90% dos jovens artistas, mas esse garoto paulistano vem demonstrando que pode ir além e o convite para escrever a trilha sonora do filme Bellini e o Demônio, baseado na obra homônima de Tony Bellotto (guitarrista da banda Titãs), comprova tal fato.

Assim que finalizar o processo de composição da trilha, Miu deve voltar a trabalhar nas músicas que em breve serão disponibilizadas na rede, contando com a ajuda da amiga Karina Guerra, que participa de várias canções da Fragile Arm .


A fragilidade exposta

As canções da banda podem ser encontradas no myspace e em um EP que foi lançado pela Midsummer Madness em 2007. Com o sugestivo nome de Waiting for the man of sorrows, este EP apresenta seis canções que descrevem eficientemente o trabalho da banda.

Num primeiro momento, as faixas podem soar estranhas e até mesmo confusas, entretanto, à medida que as faixas vão se sucedendo, percebe-se que o que era estranheza torna-se próximo e a diversidade de sons presentes no trabalho vai, aos poucos, nos conduzindo por um caminho que o autor deseja que percorramos. E essas trilhas são sinuosas, obscuras, sujas, pertencentes a mundo cinzento e caótico. Nesse ponto percebe-se uma das maiores virtudes da obra dessa “one man band” ao implicitamente questionar: até onde você pretende ir para conhecer seu lado mais obscuro?

Abrindo o cd, a labiríntica Missing hipnotiza os ouvintes com sua harmonia cíclica, mas que nunca nos parece maçante. Miu se encarrega de evitar que isso ocorra com uma voz modulada que admite as perdas num tom desolado e cínico (“would you come today to save me?would you come today to rape me?”)

Em For C. (my only and truly) guitarras e uma simples linha de baixo revelam mais do aspecto roqueiro da obra da Fragile Arm . A desilusão e os conflitos íntimos continuam sendo escancarados em versos como “i just keep on lying and smiling/i dont want to see me crying”.

O ponto alto desse trabalho fica por conta da ótima Parallel Lines Never Meet. Se nas faixas anteriores havia um desolamento com certo tom arrogante, nesta canção o eu-lírico da canção admite a sua real fragilidade(“i´m givin´up, yes, i´m givin´up again of...everything that i should believe”). Orgy e Sleep completam os cenários que Filipe cuidosamente preparou para “narrar” suas histórias.

Encerrando esta compilação,a faixa Nevermind surpreende por revelar a bela voz de Karina Guerra em sua única participação nesse EP. Além de conferir uma delicadeza à canção, sua espontaneidade no diálogo inserido na música confirma que a Fragile Arm é um projeto de muita maturidade musical, caracterizando-se também pela naturalidade de uma juventude que, contrariando a opinião geral, sabe aonde quer chegar.

Outras canções estão disponíveis apenas no já citado myspace da banda. Esse é o caso das ótimas Bomb Threat com uma guitarra com um timbre que poderia perfeitamente estar em uma das músicas da banda de Brian Molko e de Spin ( a mais indicada para quem busca algo que seja mais próximo de uma canção pop) na qual, as guitarras e a batida sugerem, inclusive, um tom radiofônico à canção. Através dessas músicas é possível compreender um pouco melhor o trabalho desse artista e seu processo quase compulsivo de composição que ainda deixa latente a pergunta: você realmente quer conhecer seu lado mais obscuro?


Comentários

Júlio B. :
Lembro dos meus dias mais lonelynerdísticos, nos quais conheci [virtualmente] dois garotos que gostavam da banda como eu... um deles era o Miu. . Simpatizo ao quadrado com a sonoridade da Fragile Arm. . Belo texto, Marcel. . E, Miu, até hoje me pergunto por que vocês não foram ao show do Lonely Nerds em SP (...)
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Fernando :
O som é ao mesmo tempo estranho e bom. É uma confusão interessante de ouvir. Parabéns pela resenha e boa a dica.
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