Menu Principal

Entrar
Login:

Senha:




BLADE RUNNER, 25 ANOS: LÁGRIMAS NA CHUVA

Roberto Souza
17/12/2007

 

Blade Runner, o Cacador de Andróides ( Blade Runner ) completou 25 anos de existência. A Warner Brothers, detentora dos direitos autorais da obra para o mercado internacional de vídeo, está comemorando o fato com o lançamento das mais diversas edições mundo afora. O Brasil, por enquanto, foi aquinhoado com um caprichado box triplo, cuja quantidade de extras farão o deleite de qualquer cinéfilo: são mais de três horas e meia de documentários inéditos, depoimentos, entrevistas, imagens de bastidores e cenas excluídas.

Contudo o caráter mais marcante dessa edição comemorativa reside em disponibilizar as quatro versões disponíveis da emblemática obra do britânico Ridley Scott. Além da restauração integral das duas versões originais, de 1982 (a Americana e a Internacional), temos ainda a Versão do Diretor (1991) e a novíssima Versão Definitiva, aprontada especialmente para coroar os festejos. Os contextos que viabilizaram o surgimento de cada uma delas através dos anos, servem de exemplo de como é difícil, atualmente, apontar a forma final de um filme.

Blade Runner seguramente é o cult-movie por excelência. Baseado no livro de Philip K. Dick, desde sua estréia cativou uma legião de fãs e de críticos, deslumbrados com seu arrojado visual high-tech que emoldurava uma atmosfera noir sufocante e claustrofóbica. Porém o aspecto revolucionário dessa concepção estava em driblar a aridez formal proposta, introduzindo um equilíbrio trazido por momentos líricos, que alternava sequências de pura selvageria e suave poesia.

O enredo transcorre em 2019, numa ainda mais poluída, chuvosa e congestionada Los Angeles. Rick Deckard (Harrison Ford) é um policial de elite aposentado, especializado em caçar Replicantes , uma proscrita geração de poderosos andróides que desenvolveu a surpreendente capacidade de entender sentimentos e acalentar sonhos. Quando cinco deles, liderados pelo cruel Roy Batty (Rutger Hauer), fogem após um sangrento motim de uma colônia espacial, partindo rumo à Terra, Deckard é convocado para deter o perigo que representam.

A visão de Scott de um futuro caótico e nebuloso faz sua câmera desnudar uma sociedade oculta em becos, inferninhos, guetos, moradias sórdidas e extremo individualismo. A cenografia revela um mundo que combina Ocidente e Oriente, misturando gigantescos painéis publicitários e geringonças tecnológicas, indicando não haver mais localidades imunes à ambição humana. Assim, ora o espectador é conduzido pela amplitude de uma montanha russa, ora é colocado no intimismo de um corredor estreito. Curiosamente, será sempre através dos seres artificiais, de andróides rebeldes ou pacíficos, que emergirão em ambos os casos resquíscios de humanismo ou a sensação de que nem tudo possa estar perdido.

A bela e eloqüente narração em off conduzida pelo personagem de Ford, um componente fundamental do universo dos film noir , confere ao desenrolar da obra, combinada à pontuação da magnífica trilha sonora de Vangelis, um sentido de reflexão e consciência. O matador frio e profissional aos poucos mergulha em si mesmo, sacudindo o lixo de suas entranhas, encontrando no amor proporcionado por uma sensível andróide (Sean Young) a libertação dos conceitos arcaicos, das certezas indeléveis, dos motivos que o transformaram num executor. Nesse momento, criador e criatura simbolicamente se reencontram.

A riqueza e amplitude da obra-prima de Scott parece somente não ter agradado a ele próprio. Ao aprontar o primeiro corte do filme desapontou os produtores. Sua visão era amarga e pessimista, não havia válvula de escape ou esperança. A narração em off sequer existia, a secura radical era a tônica. O estúdio impôs à revelia uma série de alterações que tornasse o produto final mais palatável, com uma atmosfera menos ambígua e mais emocional. Tiveram que recorrer às sobras de cenas externas de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, para criar o desenlace arejado. Duas versões foram então aprontadas: a Versão Americana (117 minutos) e a Versão Internacional (123 minutos). A diferença de seis minutos se justifica na presença de cenas de violência explícita. Nos Estados Unidos elas foram cortadas para tornar possível baixar a censura classificatória do filme, garantindo o acesso livre do público adolescente às salas de exibição.

Em 1991, dez anos após o lançamento, Scott se utilizou de uma cláusula contratual para viabilizar sua Versão do Diretor, também com 117 minutos, resgatando sua concepção original brecada anteriormente. Embora tenha alguns defensores, a verdade é que não agradou a maioria, que lamentou assistir desaparecer todo o encantamento da primeira montagem. Ainda se valendo do dispositivo contratual, o cineasta baniu do mercado as duas versões iniciais, tornando sua nova a única disponível desde então, lacuna reparada pela atual edição em DVD. Procurando minimizar a enxurrada de recriminações, o cineasta buscou um meio termo, aprontando a Versão Definitiva, que em comum com as anteriores mantém apenas os 117 minutos de duração. Trata-se de um produto híbrido, oportunista, que não diz ao que veio, ficando nem tanto ao mar, nem tanto à terra, no pior sentido da expressão, sendo uma total miscelânea de intenções.

O que vale mesmo, acima de tudo, é a liberdade de escolha, finalmente restaurada. Uma aspiração, aliás, que embasava os ideais implícitos no filme, a rigor um libelo contra o preconceito e a intolerância. A emoção de rever na versão desejada um divisor de águas na história do cinema. Após tantos percalços de visões pessoais e interesses comerciais, constatar o ápice da irregular carreira de Scott ( Alien , Thelma & Louise , Gladiador ), onde ele melhor introduziu sua vasta experiência da estética vertiginosa da publicidade. Além disso, ao se soprar as velinhas do bolo de aniversário, o que resta de palpável é a constatação filosófica do andróide Roy, agora sanada, em seu instante derradeiro: “todos os momentos que se perdem no tempo são como lágrimas na chuva”.


Comentários

Thaís Gischkow :
Ainda bem que as versões de Blade Runner não se perderam no tempo como lágrimas na chuva... Eis uma boa indicação, ver Blade Runner nas outras versões e apresentar esse cult pros nossos filhos. Roberto, parabéns mais uma vez!
_________________________________________________________________________________________________
Helena L Martinez :
Maravilhoso ler seu texto sobre esse inesquecível cult, de trilha sonora tb fantástica! Parabéns Roberto pelo texto e por me fazer retornar no tempo!
_________________________________________________________________________________________________
Beatriz Bajo :
Que bonita imagem conseguida sobre os instantes perdidos!! Maravilha o box triplo e a maneira como vc desnuda o filme e seu papel reflexivo diante da sociedade plástica e sórdida frente à mecanização humana. Belo trabalho da película e bela também a recriação tão sua...para-béns mais internos! ;)
_________________________________________________________________________________________________
Samantha Abreu :
puxa! é um clássico dos clássicos. vejo, revejo e não termino nunca de querer ver. Lindo.
_________________________________________________________________________________________________

Nome :
Comentário:



Parceiros

________________

Seja Nosso Parceiro!