
THE PIPER AT THE GATES OF DAWN (1967) *****
Disco precioso e obrigatório por ser o único álbum
a contar com a mente ainda relativamente lúcida e altamente
criativa de Syd Barrett, que compôs quase todas as canções.
Um psicodelismo e uma sonoridade das mais excêntricas que não
se encontrariam nos discos seguintes da banda. Pode ser difícil
gostar do álbum nas primeiras audições, mas esse
é um disco que vale a pena insistir ouvir até gostar
(a recompensa é das maiores). Se tivesse que citar só
três faixas-destaques, escolheria “Lúcifer Sam”,
“Pow R Toc H” e a épica “Interstellar Overdrive”
(que nos shows na época costumava ser tocada durante quarenta
minutos!). Não sem razão é considerado por muitos
o melhor disco da banda.
A SAUCERFUL OF SECRETS (1968) ****
O único álbum a contar com todos os cinco integrantes
do Pink Floyd, com a entrada de David Guilmour para ocupar o lugar
de Barrett, que estava cada vez mais com a mente deteriorada. O disco
é um esforço dos quatro remanescentes para não
deixar a banda morrer, e o resultado é um álbum muito
bom, mas sem a mesma coesão do The Piper... Guilmour era um
guitarrista mais brilhante que Barrett, mas não tinha o mesmo
talento para a composição. Por isso Roger Waters vai
se assumindo como o principal compositor do grupo, desde a ótima
faixa de abertura “Let There Be More Light”, até
a clássica “Set the Controls for the Heart of the Sun”
e a deliciosa “Corporal Clegg”. Mas o tecladista Richard
Wright não deixa por menos, e assina outros dos melhores momentos
do disco, como “Remenber A Day” e principalmente a belíssima
e melancólica “See Saw”. Os agora quatro membros
do Floyd (Waters, Guilmour, Wright e Nick Mason) assinam em conjunto
a faixa-título, um longo experimento nos moldes da banda, mas
que não é das peças mais brilhantes de sua discografia.
Para encerrar o disco, a extraordinária “Jugband Blues”,
a única composição e vocal de Barrett nesse álbum,
uma canção lúgubre que soa como uma verdadeira
retirada de cena de sua parte, o seu canto de cisne.
MORE (1969) ****
Trilha sonora de encomenda para um filme hippie francês da
época, o que o torna um trabalho não tão elaborado
quanto os outros discos da banda. Se não é dos mais
brilhantes, tampouco carrega nas pretensões dos discos mais
experimentais do grupo. Mas é muito bom. Destaques para “The
Nile Song” (talvez o rock mais pesado de todos as composições
da banda), a romântica “Green is the Color” e a
melhor do disco, Cymbaline, as três compostas por Waters (a
maioria das faixas restantes foram assinadas pelos quatro integrantes).
UMMAGUMMA (1969) ****
O disco mais experimental do Pink Floyd, e a experimentação
é tanta que resulta num trabalho que oscila entre o genial
e o (por vezes) medíocre. É a banda querendo se encontrar
e se reerguer após a saída de Barrett, e cada um dos
quatro membros ganhou espaço para compor algumas faixas com
total autonomia. Começa com a pomposa, sinistra e épica
“Sysiphus”, da autoria de Richard Wright (que por sinal,
toca todos os instrumentos ouvidos na faixa). Roger Waters assina
as duas canções seguintes: a bucólica “Grantchester
Meadows”, e a estranhíssima “Several Species...”,
que descreve o encontro de vários animais (os sons dos animais
é a voz de Waters tocada em velocidades diferentes). Depois
é a vez de “The Narrow Way” (dividida em três
partes), que é a primeira música que Guilmour compôs
sozinho para a banda (ele também toca todos os instrumentos
ouvidos na faixa). Provavelmente é a melhor desse álbum,
por ser a menos experimental e pretensiosa. Em compensação,
“The Grand Vizier´s Garden Party” é uma sem-graça
experimentação do baterista Nick Mason com solos de
percussão. O álbum duplo também traz um segundo
disco com boas apresentações ao vivo de alguns sucessos
dos discos anteriores.
ATHOM MOTHER HEART (1970) ****
O famoso disco com uma vaquinha na capa, idolatrado pela maioria
dos fãs, mas que não é visto com bons olhos pelos
componentes da banda. Bobagem deles, o disco é excelente. Começa
com uma das mais longas composições da banda, de autoria
dos quatro membros, a faixa-título que é acompanhada
com uma orquestra (música que custei a gostar, hoje acho incrível).
Depois, cada um dos três principais integrantes comparece com
uma canção de sua autoria, com exceção
de Mason (que nunca mais compôs nada sozinho depois de Ummagumma).
A desolada “If”, em ritmo de canção de ninar,
prenuncia um estilo pessimista que Waters aprimoraria anos mais tarde.
Mas a melhor faixa do disco pertence a Richard Wright, a sensacional
“Summers of 68”, que permanece até hoje como uma
das melhores canções que Pink Floyd já gravou,
e que inclusive conta com a participação da orquestra
que acompanhou a faixa-título. É de chorar de tão
boa. A canção de Guilmour para esse álbum também
é bonita, a rural “Fat Old Sun”. O disco só
não é perfeito porque termina com mais um instrumental
longo composto pelo quarteto, "Alan's Psychedelic Breakfast",
com ruidos, efeitos sonoros, arranjos e idéias que envelheceram
muito mal.
RELICS (1971) ****
Uma compilação de vários singles e compactos
anteriores, com algumas músicas que não estão
presentes nos primeiro discos da banda. Traz canções
primorosas e preciosissimas, como as antológicas e psicodélicas
“Arnold Layne” e “See Emily Play” (duas das
melhores músicas já compostas por Syd Barrett). Destaque
também para a belissima “Paintbox” (mais uma confirmção
do talento invulgar de Richard Wright como compositor). Tem também
duas composições de Waters: “Biding My Time”,
que foge do estilo do grupo mas é uma compisição
excelente, e a não tão boa “Julia Dream”.
Completa o grupo das inéditas em álbum a famosa instrumental
"Careful with That Axe, Eugene" (que está presente
no disco ao vivo de Ummagumma), de autoria dos quatro membros. As
demais faixas da coletânea são de músicas que
estão nos discos anteriores.
MEDDLE (1971) ****
Um dos mais aclamados pelos fãs e pela própria banda,
é dos discos mais redondos do grupo. Abre e fecha com dois
clássicos incontestáveis: “One of These Days”
e “Echoes”, sem dúvida das melhores da discografia
dos caras. O miolo do álbum já não é tão
bom quanto, mas não deixa a desejar, com a banda investindo
numa pegada mais leve, com influências de folk e blues. E também
é quando o grupo deixa de cada um compor sozinho para unir
os arroubos criativos de Waters como letrista com a incrível
musicalidade de Guilmour e Wright (a partir de então todas
as letras são de Waters).
OBSCURED BY CLOWD (1972) ****
Mais um disco-trilha para um filme francês, é superior
ao More, bem mais coeso e agradável de ouvir. Do inicio ao
fim o disco gira em torno da pegada mais leve e solta desenvolvida
no Meddle, com alguns experimentos sônicos típicos da
banda, só que sem maiores pretensões. É talvez
o disco mais desconhecido do Floyd e nenhuma de suas canções
se tornou clássica, mas merece ser descoberto, ouvido e revisitado
sempre.
THE DARK SIDE OF THE MOON (1973) *****
A obra mais consagrada do Pink Floyd. Todos os esforços dos
discos anteriores convergem para a criação desse, em
que pela primeira vez a banda supera o álbum de 1967. É
o melhor como uma obra única, em termos artísticos,
criativos, técnicos e de produção. É sobre
as aflições e problemas do homem moderno, que se depara
com a opressão da passagem do tempo, do dinheiro, da tecnologia
dominadora, do isolamento e da loucura (incluindo referências
a Barret). O ápice musical da banda, seu trabalho mais coeso,
fluido e polido. É tão incontornável que ficou
vinte anos entre os mais vendidos, e até hoje é um dos
três ou quatro discos que mais venderam na história da
música. Não indico destaque algum. É disco para
ser escutado na integra.
WISH YOU WERE HERE (1975) *****
A banda encarou o desafio nada fácil de lançar um
novo trabalho depois do estouro mundial de Dark Side e se saiu muito
bem criando um álbum que por vezes iguala a genialidade do
disco anterior. O conceito trabalhado agora é o da ausência,
o que serve de pretexto para um tributo ao antigo mentor Syd Barrett.
Começa e termina com a mais longa, bela e transcendental composição
do Floyd, “Shine On Crazy Diamond” (uma das mais densas
e desesperadas homenagens que se pode dedicar para alguém,
no caso para Syd), tão grande que teve que ser dividida nos
dois lados do vinil. É o disco mais intimista da banda como
um todo (sem contar discos posteriores que são obras mais do
Waters), e traz duas cínicas e contundentes criticas de Waters
sobre a indústria musical (“Welcome To the Machine”
e “Have a Cigar”, esta última com perfeitos vocais
do cantor folk Roy Harper, depois de Waters se esgoelar cantando “Shine
On...”). O tema da ausência é retomado com a faixa-título
“Wish You Were Here”, um dos hinos do Pink Floyd mundo
afora, uma das mais populares baladas do século XX. Para depois
o disco terminar de onde começou, com a continuação
de “Shine On...”, que culmina com o mais pungente trecho
musical do Floyd, a última parte da música, uma derradeira
marcha fúnebre e uma elegia musical para Syd. As letras extraordinárias
(como de hábito nessa fase da banda) são todas de Waters,
mas cabe destacar não só a participação
musical dos solos cortantes da guitarra de Gilmour, mas também
a de Wright, com seus sintetizadores e seus órgãos hammonds,
e na composição da maior parte de “Shine On...”.
ANIMALS (1977) *****
A obra que inaugura a fase de protesto político-social da
banda e também o domínio de Roger Waters sobre o grupo
(o álbum é o primeiro a não ter o crédito
em nenhuma musica do tecladista Richard Wright). É um dos trabalhos
mais conceituais do Floyd, em que mais uma vez a banda modifica sua
sonoridade, dessa vez mais surtada e com influências folk, além
de uma pegada mais “punk”, graças à predominância
das guitarras e ao clima dark, tanto do som quanto das letras de Waters.
O disco é livremente inspirado em A Revolução
dos Bichos, de George Orwell, equiparando os seres humanos a cães,
porcos e ovelhas. O álbum abre e fecha com “Pigs on the
Wing”, uma peça acústica simples e relativamente
curta, que é uma canção de amor que prepara o
terreno para o tom político geral do restante do disco. Mas
é um álbum que se impõe por sua musicalidade
bastante forte.
THE WALL (1979) *****
Um dos maiores clássicos do grupo, é uma obra cuja
repercussão desde o lançamento foi tão devastadora
que às vezes eclipsa outros discos tão importantes do
Floyd no imaginário dos que raramente se aprofundaram na discografia
da banda. É um trabalho mais pessoal de Waters, fruto de suas
lembranças, mágoas e obsessões, por vezes redundando
em um disco longo demais, que beira a megalomania, mas que se salva
por ser o auge da fase mais criativa do compositor, cujos esforços
resultam em mais uma obra-prima (ainda que longe da perfeição).
Mais uma vez a banda renova a sua sonoridade, tornando-a mais lúgubre
e contestadora, e até mesmo antecipando, em alguns momentos,
uma pegada mais pop que iria reinar em toda música internacional
na década seguinte. As faixas quase todas foram compostas exclusivamente
por Waters, mas a melhor do disco, Confortably Numb, é de autoria
de Guilmour, confirmando que o Pink Floyd quase sempre era mais genial
quando criavam em grupo. É um trabalho monumental, que três
anos depois daria origem a um filme de valor discutível.
THE FINAL CUT (1983) ***
Era para ser um disco solo de Roger Waters, mas por imposição
da gravadora foi lançado como sendo do Pink Floyd. Richard
Wright saíra da banda, Guilmour e Mason não contribuíram
com praticamente nada (Waters compôs tudo sozinho, e Guilmour
apenas divide os vocais com ele numa faixa) e uma orquestra sinfônica
completa é utilizada para compensar a ausência dos teclados
de Wright. Já odiei mais esse disco, porém escutando
outras vezes, percebe-se uma inegável qualidade sonora. Pode
ser um belo disco de Waters, mas não é um bom disco
de Pink Floyd. Basicamente, são as paranóias e obsessões
de Waters acompanhado de uma orquestra, e mais excelentes efeitos
sonoros e solos de guitarra e sax, mas não tem a cara e a musicalidade
da banda, o disco retoma e expande a atmosfera de “The Wall”,
carregando ainda mais no “deprê”. Quando na verdade
cada disco anterior da banda era uma renovação total
em relação um ao outro, algo que não acontece
com esse, que soa reciclado e anti-floydiano. Mas tem seus admiradores.
Logo após o lançamento, Roger Waters anunciou o fim
da banda.
A MOMENTARY LAPSE OF REASON (1987) **
Depois que Roger Waters decretou o fim do Pink Floyd, David Gilmour
entrou na justiça e ganhou a causa para continuar com a banda
junto com Nick Mason. Para tanto, recrutou um grande número
de músicos de estúdio como contratados (entre os quais,
Richard Wright) e lançou esse disco sem Roger Waters. O resultado
é mais David Gilmour do que Pink Floyd. O álbum carece
de muitos elementos floydianos, e para compensar a ausência
de Waters, Gilmour ainda chamou diversos compositores para ajudá-lo
a compor as letras! O resultado geral é pífio. Quando
muito, o disco tem meros decalques do que foi o Floyd anteriormente,
com “One Slip” tentando emular “Time”, ou
pior ainda, “Dogs of War” como uma tentativa canhestra
de repetir, sem sucesso, a pegada contestadora das composições
de Waters. O resto são instrumentais que não são
mais que meros pastiches do progressivo, ou então canções
pops de acordo com a época em que o disco foi lançado
(algumas se tornaram hits, mas que não tem nada a ver com o
passado da banda). A vontade de David Guilmour e Nick Mason de continuarem
com o Floyd foi nobre – mas esse disco deixa muito a desejar.
THE DIVISION BELL (1994) ***
O melhor e mais digno dos últimos álbuns da discografia
oficial do Pink Floyd. Richard Wright foi definitivamente reintegrado
como compositor e membro da banda, e o disco é o primeiro desde
os anos setenta a ser uma criação coletiva do grupo
(no caso, os três membros remanescentes, sem Waters), sendo
que o longo tempo de composição e gravação
rendeu um trabalho bastante satisfatório. As instrumentais,
por mais que se esforcem, não conseguem recuperar a tradição
do progressivo de sua época de ouro, mas Wright traz de volta
um clima realmente floydiano que se junta com força às
belas composições mais pops de Gilmour num álbum
conceitual sobre a comunicação (ou a falta de) e suas
consequências. Os arranjos são, invariavelmente, belíssimos,
e todas as faixas, sofisticadíssimas, com lampejos da genialidade
dos tempos anteriores. Só não é dos melhores
trabalhos do Pink Floyd porque nenhuma de suas canções
teve força para se tornar clássica, e falta ao disco
o amargor cortante de Roger Waters e a piração visionária
que era marca registrada desde os tempos de Syd Barrett. Mas esse
é um disco que cresce a cada audição, e que vem
amadurecendo com o tempo.