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Discografia comentada do Pink Floyd

Vlademir Lazo Corrêa
16/04/2010

 

THE PIPER AT THE GATES OF DAWN (1967) *****

Disco precioso e obrigatório por ser o único álbum a contar com a mente ainda relativamente lúcida e altamente criativa de Syd Barrett, que compôs quase todas as canções. Um psicodelismo e uma sonoridade das mais excêntricas que não se encontrariam nos discos seguintes da banda. Pode ser difícil gostar do álbum nas primeiras audições, mas esse é um disco que vale a pena insistir ouvir até gostar (a recompensa é das maiores). Se tivesse que citar só três faixas-destaques, escolheria “Lúcifer Sam”, “Pow R Toc H” e a épica “Interstellar Overdrive” (que nos shows na época costumava ser tocada durante quarenta minutos!). Não sem razão é considerado por muitos o melhor disco da banda.

A SAUCERFUL OF SECRETS (1968) ****

O único álbum a contar com todos os cinco integrantes do Pink Floyd, com a entrada de David Guilmour para ocupar o lugar de Barrett, que estava cada vez mais com a mente deteriorada. O disco é um esforço dos quatro remanescentes para não deixar a banda morrer, e o resultado é um álbum muito bom, mas sem a mesma coesão do The Piper... Guilmour era um guitarrista mais brilhante que Barrett, mas não tinha o mesmo talento para a composição. Por isso Roger Waters vai se assumindo como o principal compositor do grupo, desde a ótima faixa de abertura “Let There Be More Light”, até a clássica “Set the Controls for the Heart of the Sun” e a deliciosa “Corporal Clegg”. Mas o tecladista Richard Wright não deixa por menos, e assina outros dos melhores momentos do disco, como “Remenber A Day” e principalmente a belíssima e melancólica “See Saw”. Os agora quatro membros do Floyd (Waters, Guilmour, Wright e Nick Mason) assinam em conjunto a faixa-título, um longo experimento nos moldes da banda, mas que não é das peças mais brilhantes de sua discografia. Para encerrar o disco, a extraordinária “Jugband Blues”, a única composição e vocal de Barrett nesse álbum, uma canção lúgubre que soa como uma verdadeira retirada de cena de sua parte, o seu canto de cisne.

MORE (1969) ****

Trilha sonora de encomenda para um filme hippie francês da época, o que o torna um trabalho não tão elaborado quanto os outros discos da banda. Se não é dos mais brilhantes, tampouco carrega nas pretensões dos discos mais experimentais do grupo. Mas é muito bom. Destaques para “The Nile Song” (talvez o rock mais pesado de todos as composições da banda), a romântica “Green is the Color” e a melhor do disco, Cymbaline, as três compostas por Waters (a maioria das faixas restantes foram assinadas pelos quatro integrantes).

UMMAGUMMA (1969) ****

O disco mais experimental do Pink Floyd, e a experimentação é tanta que resulta num trabalho que oscila entre o genial e o (por vezes) medíocre. É a banda querendo se encontrar e se reerguer após a saída de Barrett, e cada um dos quatro membros ganhou espaço para compor algumas faixas com total autonomia. Começa com a pomposa, sinistra e épica “Sysiphus”, da autoria de Richard Wright (que por sinal, toca todos os instrumentos ouvidos na faixa). Roger Waters assina as duas canções seguintes: a bucólica “Grantchester Meadows”, e a estranhíssima “Several Species...”, que descreve o encontro de vários animais (os sons dos animais é a voz de Waters tocada em velocidades diferentes). Depois é a vez de “The Narrow Way” (dividida em três partes), que é a primeira música que Guilmour compôs sozinho para a banda (ele também toca todos os instrumentos ouvidos na faixa). Provavelmente é a melhor desse álbum, por ser a menos experimental e pretensiosa. Em compensação, “The Grand Vizier´s Garden Party” é uma sem-graça experimentação do baterista Nick Mason com solos de percussão. O álbum duplo também traz um segundo disco com boas apresentações ao vivo de alguns sucessos dos discos anteriores.

ATHOM MOTHER HEART (1970) ****

O famoso disco com uma vaquinha na capa, idolatrado pela maioria dos fãs, mas que não é visto com bons olhos pelos componentes da banda. Bobagem deles, o disco é excelente. Começa com uma das mais longas composições da banda, de autoria dos quatro membros, a faixa-título que é acompanhada com uma orquestra (música que custei a gostar, hoje acho incrível). Depois, cada um dos três principais integrantes comparece com uma canção de sua autoria, com exceção de Mason (que nunca mais compôs nada sozinho depois de Ummagumma). A desolada “If”, em ritmo de canção de ninar, prenuncia um estilo pessimista que Waters aprimoraria anos mais tarde. Mas a melhor faixa do disco pertence a Richard Wright, a sensacional “Summers of 68”, que permanece até hoje como uma das melhores canções que Pink Floyd já gravou, e que inclusive conta com a participação da orquestra que acompanhou a faixa-título. É de chorar de tão boa. A canção de Guilmour para esse álbum também é bonita, a rural “Fat Old Sun”. O disco só não é perfeito porque termina com mais um instrumental longo composto pelo quarteto, "Alan's Psychedelic Breakfast", com ruidos, efeitos sonoros, arranjos e idéias que envelheceram muito mal.


RELICS (1971) ****

Uma compilação de vários singles e compactos anteriores, com algumas músicas que não estão presentes nos primeiro discos da banda. Traz canções primorosas e preciosissimas, como as antológicas e psicodélicas “Arnold Layne” e “See Emily Play” (duas das melhores músicas já compostas por Syd Barrett). Destaque também para a belissima “Paintbox” (mais uma confirmção do talento invulgar de Richard Wright como compositor). Tem também duas composições de Waters: “Biding My Time”, que foge do estilo do grupo mas é uma compisição excelente, e a não tão boa “Julia Dream”. Completa o grupo das inéditas em álbum a famosa instrumental "Careful with That Axe, Eugene" (que está presente no disco ao vivo de Ummagumma), de autoria dos quatro membros. As demais faixas da coletânea são de músicas que estão nos discos anteriores.


MEDDLE (1971) ****
Um dos mais aclamados pelos fãs e pela própria banda, é dos discos mais redondos do grupo. Abre e fecha com dois clássicos incontestáveis: “One of These Days” e “Echoes”, sem dúvida das melhores da discografia dos caras. O miolo do álbum já não é tão bom quanto, mas não deixa a desejar, com a banda investindo numa pegada mais leve, com influências de folk e blues. E também é quando o grupo deixa de cada um compor sozinho para unir os arroubos criativos de Waters como letrista com a incrível musicalidade de Guilmour e Wright (a partir de então todas as letras são de Waters).


OBSCURED BY CLOWD
(1972) ****
Mais um disco-trilha para um filme francês, é superior ao More, bem mais coeso e agradável de ouvir. Do inicio ao fim o disco gira em torno da pegada mais leve e solta desenvolvida no Meddle, com alguns experimentos sônicos típicos da banda, só que sem maiores pretensões. É talvez o disco mais desconhecido do Floyd e nenhuma de suas canções se tornou clássica, mas merece ser descoberto, ouvido e revisitado sempre.


THE DARK SIDE OF THE MOON
(1973) *****
A obra mais consagrada do Pink Floyd. Todos os esforços dos discos anteriores convergem para a criação desse, em que pela primeira vez a banda supera o álbum de 1967. É o melhor como uma obra única, em termos artísticos, criativos, técnicos e de produção. É sobre as aflições e problemas do homem moderno, que se depara com a opressão da passagem do tempo, do dinheiro, da tecnologia dominadora, do isolamento e da loucura (incluindo referências a Barret). O ápice musical da banda, seu trabalho mais coeso, fluido e polido. É tão incontornável que ficou vinte anos entre os mais vendidos, e até hoje é um dos três ou quatro discos que mais venderam na história da música. Não indico destaque algum. É disco para ser escutado na integra.


WISH YOU WERE HERE (1975) *****

A banda encarou o desafio nada fácil de lançar um novo trabalho depois do estouro mundial de Dark Side e se saiu muito bem criando um álbum que por vezes iguala a genialidade do disco anterior. O conceito trabalhado agora é o da ausência, o que serve de pretexto para um tributo ao antigo mentor Syd Barrett. Começa e termina com a mais longa, bela e transcendental composição do Floyd, “Shine On Crazy Diamond” (uma das mais densas e desesperadas homenagens que se pode dedicar para alguém, no caso para Syd), tão grande que teve que ser dividida nos dois lados do vinil. É o disco mais intimista da banda como um todo (sem contar discos posteriores que são obras mais do Waters), e traz duas cínicas e contundentes criticas de Waters sobre a indústria musical (“Welcome To the Machine” e “Have a Cigar”, esta última com perfeitos vocais do cantor folk Roy Harper, depois de Waters se esgoelar cantando “Shine On...”). O tema da ausência é retomado com a faixa-título “Wish You Were Here”, um dos hinos do Pink Floyd mundo afora, uma das mais populares baladas do século XX. Para depois o disco terminar de onde começou, com a continuação de “Shine On...”, que culmina com o mais pungente trecho musical do Floyd, a última parte da música, uma derradeira marcha fúnebre e uma elegia musical para Syd. As letras extraordinárias (como de hábito nessa fase da banda) são todas de Waters, mas cabe destacar não só a participação musical dos solos cortantes da guitarra de Gilmour, mas também a de Wright, com seus sintetizadores e seus órgãos hammonds, e na composição da maior parte de “Shine On...”.


ANIMALS (1977) *****

A obra que inaugura a fase de protesto político-social da banda e também o domínio de Roger Waters sobre o grupo (o álbum é o primeiro a não ter o crédito em nenhuma musica do tecladista Richard Wright). É um dos trabalhos mais conceituais do Floyd, em que mais uma vez a banda modifica sua sonoridade, dessa vez mais surtada e com influências folk, além de uma pegada mais “punk”, graças à predominância das guitarras e ao clima dark, tanto do som quanto das letras de Waters. O disco é livremente inspirado em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, equiparando os seres humanos a cães, porcos e ovelhas. O álbum abre e fecha com “Pigs on the Wing”, uma peça acústica simples e relativamente curta, que é uma canção de amor que prepara o terreno para o tom político geral do restante do disco. Mas é um álbum que se impõe por sua musicalidade bastante forte.


THE WALL (1979) *****

Um dos maiores clássicos do grupo, é uma obra cuja repercussão desde o lançamento foi tão devastadora que às vezes eclipsa outros discos tão importantes do Floyd no imaginário dos que raramente se aprofundaram na discografia da banda. É um trabalho mais pessoal de Waters, fruto de suas lembranças, mágoas e obsessões, por vezes redundando em um disco longo demais, que beira a megalomania, mas que se salva por ser o auge da fase mais criativa do compositor, cujos esforços resultam em mais uma obra-prima (ainda que longe da perfeição). Mais uma vez a banda renova a sua sonoridade, tornando-a mais lúgubre e contestadora, e até mesmo antecipando, em alguns momentos, uma pegada mais pop que iria reinar em toda música internacional na década seguinte. As faixas quase todas foram compostas exclusivamente por Waters, mas a melhor do disco, Confortably Numb, é de autoria de Guilmour, confirmando que o Pink Floyd quase sempre era mais genial quando criavam em grupo. É um trabalho monumental, que três anos depois daria origem a um filme de valor discutível.


THE FINAL CUT (1983) ***

Era para ser um disco solo de Roger Waters, mas por imposição da gravadora foi lançado como sendo do Pink Floyd. Richard Wright saíra da banda, Guilmour e Mason não contribuíram com praticamente nada (Waters compôs tudo sozinho, e Guilmour apenas divide os vocais com ele numa faixa) e uma orquestra sinfônica completa é utilizada para compensar a ausência dos teclados de Wright. Já odiei mais esse disco, porém escutando outras vezes, percebe-se uma inegável qualidade sonora. Pode ser um belo disco de Waters, mas não é um bom disco de Pink Floyd. Basicamente, são as paranóias e obsessões de Waters acompanhado de uma orquestra, e mais excelentes efeitos sonoros e solos de guitarra e sax, mas não tem a cara e a musicalidade da banda, o disco retoma e expande a atmosfera de “The Wall”, carregando ainda mais no “deprê”. Quando na verdade cada disco anterior da banda era uma renovação total em relação um ao outro, algo que não acontece com esse, que soa reciclado e anti-floydiano. Mas tem seus admiradores. Logo após o lançamento, Roger Waters anunciou o fim da banda.


A MOMENTARY LAPSE OF REASON
(1987) **

Depois que Roger Waters decretou o fim do Pink Floyd, David Gilmour entrou na justiça e ganhou a causa para continuar com a banda junto com Nick Mason. Para tanto, recrutou um grande número de músicos de estúdio como contratados (entre os quais, Richard Wright) e lançou esse disco sem Roger Waters. O resultado é mais David Gilmour do que Pink Floyd. O álbum carece de muitos elementos floydianos, e para compensar a ausência de Waters, Gilmour ainda chamou diversos compositores para ajudá-lo a compor as letras! O resultado geral é pífio. Quando muito, o disco tem meros decalques do que foi o Floyd anteriormente, com “One Slip” tentando emular “Time”, ou pior ainda, “Dogs of War” como uma tentativa canhestra de repetir, sem sucesso, a pegada contestadora das composições de Waters. O resto são instrumentais que não são mais que meros pastiches do progressivo, ou então canções pops de acordo com a época em que o disco foi lançado (algumas se tornaram hits, mas que não tem nada a ver com o passado da banda). A vontade de David Guilmour e Nick Mason de continuarem com o Floyd foi nobre – mas esse disco deixa muito a desejar.


THE DIVISION BELL
(1994) ***

O melhor e mais digno dos últimos álbuns da discografia oficial do Pink Floyd. Richard Wright foi definitivamente reintegrado como compositor e membro da banda, e o disco é o primeiro desde os anos setenta a ser uma criação coletiva do grupo (no caso, os três membros remanescentes, sem Waters), sendo que o longo tempo de composição e gravação rendeu um trabalho bastante satisfatório. As instrumentais, por mais que se esforcem, não conseguem recuperar a tradição do progressivo de sua época de ouro, mas Wright traz de volta um clima realmente floydiano que se junta com força às belas composições mais pops de Gilmour num álbum conceitual sobre a comunicação (ou a falta de) e suas consequências. Os arranjos são, invariavelmente, belíssimos, e todas as faixas, sofisticadíssimas, com lampejos da genialidade dos tempos anteriores. Só não é dos melhores trabalhos do Pink Floyd porque nenhuma de suas canções teve força para se tornar clássica, e falta ao disco o amargor cortante de Roger Waters e a piração visionária que era marca registrada desde os tempos de Syd Barrett. Mas esse é um disco que cresce a cada audição, e que vem amadurecendo com o tempo.


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