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Descoberto em realidade

Aline Aimée
16/04/2010

A editora Bem-te-vi nos brindou em 2007 com a segunda coleção da deliciosa série Canto do Bem-te-vi, cuja seleção de poetas é feita por nomes de peso na cena literária, como Armando Freitas Filho e Silviano Santiago. Ao léu, sétimo volume dessa segunda coleção, traz uma coletânea das poesias do carioca André Luiz Pinto.

Nesse volume, encontramos um eu lírico entregue, desnudado atrás de um olhar estritamente poético: “Sigo o poema para vê-lo onde termina./ Tudo está nu, debruçado na janela” (V, p.17) Uma forte ligação com a cidade do Rio de Janeiro é latejante e complexa. No poema I, a realidade do subúrbio dói em desconforto, desencontro do indivíduo numa inexorável inadequação:

Escrever é proibido, artistas vivem
De pagode, bate aqui no peito
A ruína de quem cedo
Aprendeu a ler e eu não devia.
(...)
Madureira, matadouro de homens,
Dos secos e molhado
Nas praças e nos
Congados, de nossas vítimas. (p.9)

O poeta se rende à flânerie para captar nas ruas e no cotidiano urbano pequenas singelezas, extraindo o poético do insuspeitado:

“Viu eles?
Viu eles, tio?
São irmões!”
Diz o menino
trás de mim
no ônibus.
A vida
surpreende
o mais ateu
dos homens.
Poucos sabem
o gozo de andar
assim pela cidade.
Somos feito as cotias
no Campo de Santana. (p.19)

O poeta tem a percepção aflorada para os elementos circundantes, como antena de vida a descobrir a substância humana em anônimos, e com eles se conectar à rede da rotina:

Linda, atravessa a passarela
a plataforma da estação Madureira
com a ponta dos pés. É grato olhar
com surpresa seu coração de vidro.
Quantos lhe terão roubado a paixão?
E quantas vezes ela se apavorou
ao olhar de novo?
(...)(VII, p. 21)

Na estrofe 5 do poema “arraial”, a cidade desperta no eu poético um sentimento de não pertencimento, já que ela é incompatível com a tristeza que o assola, sem se comover com ele e tornando-o parte dissonante em seu próprio incômodo:

Eu que ando triste
do outro lado
do Rio
o Rio que me afoga
entre os alambrados
cego de saber
não sou dele
cego de viver
eu sinto. (p.26)

Na poesia desse mestrando em filosofia e editor da revista literária .doc, o anseio pela emoção é intenso, mas, por vezes, pensar ou sentir é doloroso e extenuante. Por isso, o eu lírico se deixa sucumbir ao incontrolável desejo de esvaziamento da mente:

(...)
o enfado nessas horas é sorrir
ponha vinho, que bebo até a cicuta

é a hora canina do abandono
não fique sonhando que descansará feliz. (XVI, p. 39)

Nadar com a corrente não é problema para o poeta, se o sentimento for verdadeiro. Admitir-se semelhante ou popular não o atemoriza:

(...)
Levo em mim os talhos que os anos
encravam no peito. Sangro
pelo chão os ditos populares.
Iansã, aqui estão seus colares.
Para todo erro, há sempre
um jeito. É o amor sem
esperança, o verso mais brega,
Porém ele é meu. (...) (XV, p. 37)

A explosão emotiva também se dá em XXXII, uma vez que toda a força da revolta e da frustração é escarrada em açoite que respinga na própria face:

Sou um autor apagado. Desisti de escrever.
As anotações em bloco já não me servem mais.
A feiúra dos olhos alastrou pela boca
e agora sobrecarrega as mãos. O ventre
de tua mãe balofa não ia dar boa
coisa mesmo. Sou detonado pelo ciúme
e pela inveja, em verdade, sou bem
mesquinho. Os canhões não me anunciam.
Aleluia às iditoras que agora
podem respirar em paz! (p.71)

Através de uma linguagem urbana, de um vocabulário jovial e de metáforas pinceladas com o colorido popular, o poeta persegue sensações reais, quase tão concretas quanto o labirinto urbano em que está inserido. É no sentido quente e forte que está a matéria de sua poesia:

(...)
quero a palavra carne
verbo que ilumina
labirinto sem deus
quero a palavra morte
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol
inescapável
como a fome
(...) (XXV, p. 57)

Estar “ao léu” é se desprover de qualquer proteção, é se expor em marcha resistente, mesmo sem saber o que se vai achar, “calculando erro após erro / nenhuma certeza. Pobre amor atroz, / das palavras lançadas ao vento, / esta é a menos pior, / Aliás, qual?”


Referência:
PINTO, André Luiz. Ao léu. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2007.

Sobre o autor:


O poeta André Luiz Pinto nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. Sua poesia parece ter um pé plantado no surrealismo com versos desfocados do senso comum, ambíguos, às vezes obscuros e desconcertantes. Essa é também a impressão do poeta e crítico Carlito Azevedo, que vê "algo de surrealista nas imagens insólitas" de André Luiz.
De fato é surpreendente associar a lembrança da pessoa amada a "um leão rasgando seda" (veja o poema "Incrível"). Ou, então, conservar um desejo numa "fronha de nuvens" ("Quase um Corpo").
Com três livros publicados — Flor à Margem (1999); Um Brinco de Cetim/Un Pendiente de Satén (2003); e Primeiro de Abril (2004) —, André Luiz tem também poemas em revistas e jornais especializados.
Fonte: Ave Palavra


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