
Bernardo Brayner é escritor e publicitário. Vive em Recife.
Publicou Exercícios de Morrer, em 2005, e atualmente escreve
em sua imperdível página Livros
que você precisa ler.
AP: O que te move quando preenche a folha em branco com belos contos?
Bernardo Brayner: O que me move é a vontade intensa de criar
algo, de revisitar coisas, sentimentos, sensações. Eu
trabalho sempre com a mistura entre memória e imaginação.
Acho que essa é a minha matéria-prima.
AP: Ficção ou realidade o que li na orelha
do teu livro Exercícios de Morrer: "Bernardo Brayner nasceu
no Recife em 1975. Foi neste ano que seus pais perceberam que ele
não gostava de sair em retratos"? Teus pais perceberam
que você não gostava de sair em retratos. Quem percebeu
que o menino era escritor? Ou foi uma descoberta pessoal? O que faz
de ti este grande leitor?
Bernardo Brayner: Ficção e realidade. Na verdade, eu
não sei se me descobri escritor até hoje. Não
me considero como tal. Apenas interessado no assunto. Sem falsa modéstia.
Agora, leitor sim. É uma das coisas que mais gosto de fazer
na vida. É a grande descoberta. Tornei-me leitor lendo gibis.
Dali, passei para os livros e não parei nunca. Leito tudo.
Admiro principalmente: Borges, Guimarães, Machado, Poe, Vila-Matas,
Javier Marías, Osman Lins, Perec, Cortázar, Conrad,
Herberto Helder. Vamos ficar por aqui.
AP: Exercícios de Morrer cita continuamente a morte.
Este “cantar a morte” permanece ainda hoje em teus escritos?
O tema se repete em teu site Livros que você precisa ler. Na
apresentação você escreveu que o site “apresenta
alguns livros que todo mundo deve ler depois de morrer”. Fale
sobre teu belo livro, lançado em 2005, sobre o site que você
criou e, se puder, sobre a razão do tema “morte”
ficar flutuando em sua obra.
Bernardo Brayner: O cantar da morte continua sim. Mas, como eu disse,
sempre na voz de escritores criados por mim mesmo no blog. Assim me
sinto à vontade. Posso arriscar, criar coisas piegas também,
quem sabe, misturar referências pop, ironizar a minha própria
voz poética. E depois me distanciar de tudo isso, analisar
friamente, fazer crítica literária de tudo isso, depois
me aproximar de novo e rir. É esse jogo que eu adoro. Os livros
do blog foram definidos como livros que todo mundo deve ler antes
de morrer, como se a morte fosse um plano apenas imaginário,
sem presença física. Acho que tenho um componente bem
platônico, gosto também de Plotino e Baruch Spinoza.
Borges disse que a vida é um sonho sem sonhador, algo assim,
talvez a morte seja a mesma coisa. Talvez seja nada. Sempre foi uma
questão que me preocupou, desde criança. Isso aparece
bem forte no Exercícios de Morrer. Mas com o passar do tempo
e até essa repetição do tema eu passei a ver
criticamente e não sem ironia.
AP: O que estás a escrever agora? Algum livro pronto
para publicação? Segue escrevendo contos, ou vai surpreender-nos
com um romance, ou poesias, considerando o alto nível da tua
prosa poética que descobri nas páginas de Exercícios
de Morrer?
Bernardo Brayner: Só escrevo agora para o meu blog, que é
de ficção também. Pretendo, quem sabe, transformá-lo
em livro. Ali tem tudo misturado: poesia, narrativa, crítica
literária, contos. É o que me agrada agora. E só
escrevo por prazer.
AP: E a tua relação com a poesia? Como você
responderia à pergunta que o Edson Cruz nos fez à queima-roupa.
Repasso também à queima-roupa: O que é poesia?
Bernardo Brayner: Gosto de poesia, mas leio bem menos do que gostaria.
Sempre que posso estou relendo João Cabral de Melo Neto, Herberto
Helder e Paul Celan, por exemplo. O que é poesia? É
James Tate em The Lost Pilot, poema que me foi apresentado por Ductilissimo
Hernandez.
AP: Gosto de cinema, artes plásticas, música...
Dialogo com outras Artes. Qual o teu diálogo?
Bernardo Brayner: Difícil essa pergunta porque tudo, a princípio,
é fonte de diálogo. A vida do homem comum, um ônibus
cheio de trabalhadores, artes plásticas, uma conversa de bar,
um filme, um bairro, uma rua da minha infância, tudo.
AP: Bernardo Brayner por Bernardo Brayner:
Bernardo Brayner: Mentiroso.
Confira abaixo alguns contos do autor:
A ESCRITA DE MICHEL MENDELAYO – 2010 – EDITORA
MAIPÚ
O chileno Michel Mendelayo foi um dos expoentes da Geração
McOndo. Teve seus textos recusados por Alberto Fuguet na antologia
e acabou se suicidando logo em seguida. Seu livro A escrita de Porfírio,
que combina muitas vezes ensaio e ficção, ficou inédito
até hoje. Finalmente a editora Maipú resolveu lançá-lo.
Fica aqui um trecho do livro:
“Penso escrever um conto em que um homem cria outro homem através
dos corpos de escritores mortos. Penso escrever um conto sobre um
homem que é enterrado em um balão. Penso escrever um
conto sobre um homem que usa a pele como uniforme militar. Penso escrever
um conto sobre um homem de trinta anos. É careca. Tem as mãos
pequenas como as de um menino. Assim, tem, em si, o velho, a criança
e o adulto. Penso escrever um conto sobre um homem que cria um alfabeto
a partir das notas musicais; dó, ré, mi, fá,
sol, lá, si; e fica louco. Penso escrever um conto só
para usar a frase “silêncio de postes queimados”.
Penso escrever um conto onde surgem corpos de dentro de outros corpos:
o peito do pé, o pé do ouvido, as costas das mãos,
a barriga grávida da perna e a boca faminta do estômago.
Penso escrever um conto sobre um soldado julgado e condenado por deserção.
A maneira: suicídio. Penso escrever um conto de ficção
científica que demore exatos 8 minutos para ser lido. O mesmo
tempo que a luz do Sol leva para chegar até a Terra. Penso
escrever um conto sobre um homem que retira todas as suas falas de
óperas famosas. Penso escrever um conto sobre um homem que
escreve um conto sobre manuais de desajuda. E não penso em
mais nada.” (Págs. 36/37)
*
“Eu não percebi quando eles se aproximaram.
Eu estava assombrado por zumbis, sonhando com mortos vivos há
duas semanas, quando resolvi escrever um conto sobre eles. Talvez
um conto em que dois eram colocados para procriar em laboratório
e se devoravam enquanto faziam sexo, as gravações fariam
sucesso no mundo pornô. Mas fiquei desanimado quando lembrei
que Bolaño escreveu algo parecido e eu não quero parecer
um plagiador. Tento, sempre em vão, um estilo próprio,
algo que possa reconhecer como meu. Que possa mostrar como meu. Estou
notando agora, enquanto escrevo, que esta narrativa está com
cara de Sérgio Sant’anna. Sant’anna fez muito isso.
E essa autoficção toda? Sebald? Ra. O conto. Falo do
conto dos zumbis. Esse conto, ele deve ser narrado em primeira pessoa.
Pode ser um cara, um adolescente que viu a gravação
original e espalhou. Como um vírus. Péssimo paralelo.
Barato.
Cara, você tem que acreditar no que eu vi, vou te passar por
e-mail. Sinistro. Nunca vi. De verdade? Fake não.
Preciso de muito mais. Mais. O que fazer para ter essa maldita voz
interior. Negócio complicado. Talvez seja melhor explorar a
história sem se preocupar muito com isso de estilo, de voz
interior. Quem ouve voz interior é doido. Doido da. Palavrão
não. Nunca gostei de quem escreve e coloca palavrão
no meio. Vou parecer Marcelo Mirisola, sei lá. Acho que não
é legal parecer Mirisola. Não é bom ser pop demais
também. Mas o tema é pop. Só Chabon é
que ainda não descobriu. O conto deve ter uma cara nova. Essa
primeira pessoa parece Marcelino Freire. Terceira.
E então, sem que ele percebesse, eles se aproximaram. Dois
amigos que já tinham visto o vídeo. A cara assustada.
Falavam sem parar. Trabalhavam no quartel e conseguiram a gravação
por lá. Muito nervosos.
Não é legal. Tá sem vida. Plágio é
uma coisa muito séria. Por isso também me plagiei ao
escrever esse conto.”
*
MR. KALASHNIKOV – DOIS PONTOS EDITORA – 2009
Sudão (1979)
A literatura mundial já teve cães, gatos e até
defuntos como narradores. Mas provavelmente é em Mr. Kalashnikov,
primeiro romance do sudanês Mohammed Ibn Baruk, que temos pela
primeira vez um rifle automático falando em primeira pessoa
dentro de um livro. E falando muito, quase sem parar, quase que só
com vírgulas e pouquíssimos pontos. O livro começa
com uma modelo russa, que posa para revistas eróticas, empunhando
a arma. Depois da sessão de fotos a AK-47 vai parar no Sudão,
durante o cerco à região de Darfur, onde passa pelas
mãos nervosas de um janjaeweed adolescente que a trata como
se fosse a primeira mulher, atravessa a fronteira do Chade e serve
de instrumento de poder para um golpe de estado sanguinário
em que há até canibalismo, migra para a Somália
e é usado por piratas no ataque a um navio britânico.
O narrador, por fim, conta como foi desarmado por uma capacete azul
australiana de corpo longilíneo. Apesar do tema forte e trágico,
Ibn Baruk consegue imprimir algum humor e lirismo à sua história.
Para o leitor brasileiro há um curioso bônus: a epígrafe
é retirada de Machado de Assis: “O cinismo é a
sinceridade dos patifes”.
Trechos:
“Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, faz
carinha de menina má, uniforme militar, em cima do tanquinho
de guerra, nisso é o que foi dar a toda poderosa União
Soviética.” (Pág. 07)
“As mãos suadas, aquele suor grosso como sangue…”
(Pág. 65)
“Eu soprando e assoviando, cuspindo na cara desses panacas,
o circo chegou, planto flores, narizes de palhaço, pinto o
mundo de molho de tomate, izvinite, izvinite, izvinite. (Pág.
75)”