Fluoxetina
A mesma pele tão branca de tantas. As pernas finas. Os braços esguios. O corpo magro. O mesmo olhar pintado de preto, unhas vermelhas, feição delicada. Ele não podia deixar de se apaixonar.
E assim, troca de olhares bêbados, vodca no copo, “mais dois, por favor!”. Um beijo e outro e tantos. Serotonina a mil. Serotonina há mil.
Excitados, encostados no balcão do bar, ele pega delicadamente no queixo da menina, cuja identidade falsa e a maquiagem pesada permitiram a entrada naquele lugar, e com uma única palavra, um olhar de peixe morto, e bêbado, convence-a e a seduz. “Vamos!”
Sorriso tímido, “Você quer beber algo”, ela aceita, embriaguez que alimenta embriaguez. Ele a beija e viola seu corpo indevassável até então. Ela sangra um sangue da cor do esmalte, rubro, denso, dolorido.
Deventre
A ponta de um cigarro ilumina a completa escuridão. A luz de uma lua artificial entra pela janela. Um pigarro atrapalha por alguns milésimos de segundos a voz que quer falar. A dele fala, mas não cala a de Melissa. “Estava por aí!” – soltando um leve, um doce aroma. Os olhos assustados de Rodrigo parecem não acreditar na idade da menina. Logo depois, ele compreende o cheiro de rosas frescas. Uma leve cochilada. As buzinas e os freios dos frios automóveis despertam-no. Ele a examina com seu olhar bêbado-experiente. A menina adormecida ainda carrega um aroma fruto da estranha mistura rosas frescas, sangue, vodca, bala de melancia e algum suor. Ele levanta com a habilidade dos gatos, prepara um café e a convida. Ela sorri e diz que sim. Mal sabia ele o tanto que ela tinha a dizer.
Encobertos
Melissa falava rápido. E revirava os olhos. Pretendia parecer algo que não era. Na verdade, ele também parecia algo que não era. Interrompiam suas frases desesperadas com alguns beijos desnecessários. Rodrigo não compreendia muito bem algumas de suas idéias de menina que se pretende alternativa, moderna demais. Melissa falava rápido. Rápido porque o tempo passava e ela tinha muito a contar.
Os dois compartilhavam segredos. Alguns, sórdidos. Outros nem tanto. Coisas que se sente aos 20, 30 ou 40 anos. Basta estar vivo. “Busco algum equilíbrio.” “Mas equilíbrio é morte, Rodrigo.” Rodrigo falava muito. E acendia um cigarro no outro. As xícaras se enchiam assim como o peito de Melissa ao suspirar, de tanto ouvi-lo. Ao pendurar a cabeça na cama de casal tão confortável, Melissa avistou seus sapatos, vermelhos e sujos, fruto da noite passada. Ela disse que precisava ir embora. Rodrigo a embalou numa cantada barata. Melissa ficou um pouco mais.
Palavras, palavras e mais palavras. Eles se entregaram um ao outro. Era algo insano e natural. Aquele quadrado branco do conjugado pouco espaçoso fora testemunha. Os gemidos abafados de Melissa causavam certa estranheza em Rodrigo. Ele se esquecera do denso sangue, do esmalte vermelho, do mesmo rosto pálido, branco de tantas outras, e do discurso batido. Ao sexo fora concedido o silêncio. Por alguns instantes... Melissa havia gozado nos dedos de Rodrigo. Ele sentiu que tremia. De frio e de fome. A sede por palavras a levou a perfurar o silêncio. Muitos segredos seriam contados. Rodrigo, mesmo que impaciente, ouvia e tentava não transparecer a falta de saco que a idade lhe presenteou, naturalmente.
Esfaimado
Escurece e os olhos de Melissa brilham. Ainda mais. Horas e horas. Os ponteiros dos segundos do relógio de parede antigo já perfizeram o mesmo caminho milhares de vezes. Melissa levanta. O sutiã jaz num canto escuro e poeirento daquele chão. Os diálogos travados por Melissa e Rodrigo ficariam para sempre ali em segredo. “A noite vem vindo, tenho de ir...” O silêncio de Rodrigo que nada queria dizer, pois ele mesmo pensava que depois da ida de Melissa, nada seria como antes, nada, nem mesmo o cigarro acendido na escuridão, nem mesmo o copo de vodca com refrigerante, nem mesmo o gelo que se desfaz dentro dele, lenta e progressivamente. Nem mesmo a fome que sentia. Nada seria como antes. O passado e a lembrança dele mostram como nada se repete. Nem mesmo um beijo. Nem mesmo um olhar. Nem mesmo os gemidos de Melissa. Silenciosos. Doloridos. Nada retornaria a ser. “A gente se vê”. “É, a gente se vê...”
Conheça mais a autora :
"Dedico-me a viver, olhando para todos os lados e ouvindo todas as pessoas. Daí, retiro toda inspiração!"
Viviane de Oliveira mantém o blogue www.indireta.blogspot.com .