Da apresentação do livro Introdução à
crítica da razão árabe, de Mohammed Abed al-Jabri,
Editora Unesp (1997), por Ahmed Mahfoud e Marc Geoffroy:
Do ponto de vista da história geral da cultura humana, o momento
em que a cultura árabe-islâmica retoma a chama da Civilização
é o do extremo fim da época tardo-antiga, período
de decadência filosófica e científica, de “demissão”
da razão grega. Na outra extremidade, a cultura árabe-islâmica
cede, a partir do século XV, o lugar ao Ocidente cristão,
que conhece a partir daí um desenvolvimento intelectual nunca
visto e ininterrupto até hoje. Neste sentido, o período
de atividade máxima da cultura árabe-islâmica
pode, pois, ser considerado como o extremo início de um desenvolvimento
intelectual que deveria prosseguir plenamente em outro lugar. Assim,
é legítimo, para M.A. al-Jabri, perguntar-se por que
a cultura árabe-islâmica jamais superou a fase de pródromo
e, no entanto, buscar a resposta para esta pergunta numa comparação
entre a experiência árabe-islâmica e as experiências
grega antiga e européia. p. 21.
Por que o pensamento árabe-islâmico, com exceção
da experiência andalusi que, aliás, não teve nenhuma
repercussão notável no mundo muçulmano, jamais
conheceu uma auto-superação e se fechou na repetição,
ao passo que a história do pensamento grego e, mais ainda,
a história do pensamento ocidental moderno foram ambas processos
evolutivos contínuos, assinalados por etapas, cada uma das
quais constituindo ao mesmo tempo o prosseguimento e a superação
da que a precede? Em outros termos, por que os construtos cognitivos
(conceitos, métodos, visões) elaborados na cultura árabe-islâmica
na época de seu desenvolvimento durante o período medieval
não tiveram a evolução que teria colocado essa
cultura em condições de realizar um renascimento intelectual
e científico que fosse uma garantia de progresso contínuo,
a exemplo do que se produziu na Europa a partir do século XV?
p. 21-22.
O atentado de 11 de setembro de 2001, que atingiu os Estados Unidos,
perpetrado por fundamentalistas islâmicos, foi o ponto culminante
de uma série de atos terroristas que, conforme o escritor e
poeta tunisiense, professor de literatura comparada na Universidade
de Paris X – Nanterre, Abdelwahab Meddeb, teria começado
em 1979, ano em que Khomeini triunfa no Irã e o Afeganistão
é invadido pela antiga URSS.
Uma análise sígnica das imagens dos aviões
colidindo com os dois arranha-céus em Nova Iorque nos revela
as intrincadas superposições representativas que, como
camadas de uma cebola, formam a realidade. As imagens são ‘espetáculo’
num mundo que se apresenta como espetáculo através de
‘extensões’ e ‘amplificadores sensíveis’
tecnológicos, resultantes do processo científico de
acumulação (de saber) do que chamamos Ocidente.
O que as imagens revelam além dessa superfície, dessa
camada visual e primária do ‘espetáculo’,
é a ‘re-ação’ de um outro (o Outro)
mundo, um mundo que se tornou ‘re-ativo’ e que existe
‘significativa-mente’ na realidade (nada menos que ‘presença’).
O outro é o mundo árabe-islâmico, embora o que
se revela no cenário de terror como ‘re-atividade’
seja praticado por uma parcela que não deve representar a sua
totalidade, o que seria uma simplificação ‘míope’
(num sentido semiótico), visto que essa parcela – ‘terroristas
fundamentalistas islâmicos’ – é sintoma,
uma ‘patologia’ que, para entendermos melhor, precisamos
recuar no tempo. Antes, contudo, é importante colocar que o
ato ‘re-ativo’ (o atentado) foi realizado através
do uso da ‘técnica’ (e sua tecnologia) do ‘inimigo’
(o Ocidente).
Mohammed Abed al-Jabri, filósofo marroquino contemporâneo,
identifica uma interrupção na atividade de reprodução
na cultura árabe-islâmica, que deu lugar “a um
estado de inércia, de recuo e de repetição”.
Diz ele que “desde então se estabeleceu (...) uma ‘compreensão
da tradição encerrada na tradição’,
ainda hoje dominante”. Com esse estado de inércia e de
recuo, o mundo árabe-islâmico se deparou, nos nossos
dias, com um Ocidente que manteve o seu ritmo baseado justamente na
marcha de avanços capitaneados pela ‘técnica-tecnologia-ciência’,
que desde o Renascimento (séc. XVI) e o Iluminismo (séc.
XVIII) trouxe consigo o desenvolvimento do saber que resultaria, enfim,
naquilo que hoje podemos identificar como “especificidade da
modernidade” no Ocidente.
É imprescindível observarmos o que al-Jabri nota sobre
a leitura da história por parte dos fundamentalistas religiosos
do Islã. Diz ele que essa leitura:
vem de uma concepção religiosa da história,
para a qual a história é um instante dilatado no presente,
um tempo estendido na vida afetiva, testemunha da luta perpétua
e dos eternos sofrimentos padecidos pela afirmação da
identidade. E como se declara que a fé e a convicção
religiosa é que definem essa identidade, o fundamentalismo
eleva o fator espiritual à condição de único
motor da história. Quanto aos outros fatores, são considerados
secundários, dependentes do espiritual ou coisas que desfiguram
o ‘verdadeiro’ curso da história.
O pensamento árabe-islâmico não se resume, contudo,
ao fundamentalismo religioso. Existem outras ‘leituras’,
embora o próprio al-Jabri admita que “o olhar árabe
liberal sobre a tradição” parte do presente que
ele vive, ou seja, do Ocidente. Essa ‘leitura’, portanto,
é europeizante e adota “um sistema de referência
europeu”. Torna-se oportuno para nós ressaltar a questão
do ‘olhar’, termo usado pelo autor, cuja origem sígnica
nos remete aos gregos.
O interregno que duraria séculos
Refugiar-se num passado distante e buscar apoio junto a um ancestral
fundador, para recuperar a autoestima. Este é o ‘modus
operanti’ do sujeito que habita aquilo que se autodetermina
mundo (ou cultura, ou, ainda, pensamento) árabe-islâmico
contemporâneo. Daí a tendência a ser, conforme
abaliza o filósofo marroquino, em sua maior parte, fundamentalista.
A falta de perspectiva histórica e de objetividade caracteriza
o conjunto do pensamento árabe moderno e contemporâneo,
resultado de um ‘desvio da razão’ no decorrer do
processo que se estabeleceu no ‘mundo-cultura-pensamento’
árabe-islâmico há cerca de oito longos séculos.
E é esta ‘razão’ (e ‘desvio’)
que deve ser submetida a uma análise e a uma crítica,
no entender de al-Jabri, como também do professor Abdelwahab
Meddeb.
A esse respeito escreve al-Jabri:
Sem dúvida, um povo só pode pensar o mundo
através da sua tradição. Mas uma coisa é
pensar através de uma tradição que passou por
um desenvolvimento contínuo até o presente, uma tradição
de que o presente faz parte integrante, uma tradição
continuamente renovada, revisada e criticada; outra coisa é
pensar através de uma tradição de desenvolvimento
interrompido há séculos, uma tradição
afastada do presente pelo profundo abismo que os progressos da ciência
cavaram entre ela e a ciência.
Devemos notar também outro fenômeno. A língua
árabe permaneceu a mesma durante mais de quatorze séculos.
O sentimento, portanto, de sacralidade do texto é superdimensionado.
Entendemos como sentimento ‘expressão’ de uma ‘lógica
do inconsciente’ que aflora no sujeito com tal potência
que enfraquece a capacidade de observação analítica
e crítica por parte da razão para redimensionar os dados
de significação dos objetos em suas devidas categorias
ou estádios.
Desde Heráclito e Parmênides, pré-socráticos
que divergiam quanto ao ‘caráter’ da realidade,
o primeiro em defesa do dinamismo, sendo notória a frase a
ele atribuída de que “não podemos banhar-nos duas
vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo”;
o segundo defendendo uma posição monista, a qual o movimento
seria apenas aparente, um aspecto superficial das coisas, vemos dois
‘olhares’ da realidade que se diferem radicalmente. Entrementes,
seja o fluxo ‘orgânico’ do mundo e das coisas do
mundo aparente ou não, a língua, como atributo humano,
é ‘organismo vivo’, e, como tal, dinâmico.
A sacralização da língua árabe em seu
‘congelamento’ consubstancial (língua-pensamento-cultura-mundo)
seria também sintoma do ‘desvio da razão’,
que provocaria, como bem enxergou al-Jabri, uma redução
do texto em meros “receptáculos para todas as sensações
e todas as paixões”?
O legado grego para dois mundos
A problemática que perpassa a atividade dos filósofos
muçulmanos foi e é a problemática da “conciliação
entre razão e transmissão”. E foi também
para eles que o legado grego se fez presente, fundamentalmente Platão
e Aristóteles, embora o processo tenha sido diverso daquele
que se apresentaria mais tarde na cristandade européia. Não
poderíamos deixar de ilustrar dois dos mais relevantes filósofos
do mundo árabe-islâmico. São eles, em nomes latinos,
Avicena e Averróis.
Avicena (980-1037 do calendário cristão) nasceu em Afshana,
norte do Irã, e morreu em Hamadhan. Foi o maior nome da filosofia
neoplatônica islâmica e da medicina medieval. Teve como
mestre Farabi, ao qual deve sua compreensão da “Metafísica”
de Aristóteles.*
Averróis (1126-1198) nasceu em Córdoba, descendente
de uma longa linhagem de eminentes juristas da Espanha muçulmana.
Morreu no Marrocos. Os três grandes campos explorados pelo pensamento
de Averróis são os seus comentários e a sua interpretação
de Aristóteles, a sua crítica de Farabi e de Avicena,
que invoca um aristotelismo livre dos contrassensos que lhe infligira
a tradição filosófica oriental, e a sua demonstração
do acordo essencial entre a filosofia e a Revelação,
como duas expressões distintas de uma única e mesma
verdade. Com o renascimento do aristotelismo na Europa do oeste, no
fim do século XII, foi imediatamente reconhecido como grande
autoridade no pensamento judeu e cristão.*
Difícil não pensar em Agostinho e Tomás de Aquino,
naquilo que eles representaram e representam para o pensamento cristão
e o que trouxeram para este de Platão e Aristóteles,
ao olharmos Avicena e Averróis no pensamento árabe-islâmico.
O pensamento grego é assim capturado por pensadores de dois
mundos que, ao longo dos séculos, coexistiram, co-habitaram
espaços comuns, por vezes se chocaram e, outras, dividiram,
trocaram e disseminaram entre si conhecimento.
Foi uma época fértil para o mundo, a cultura e o pensamento
árabe-islâmicos nos mais diversos campos da ciência,
desde a matemática, passando pela astronomia, até a
medicina. Seus pensadores dispensavam tempo e muita energia para formular
e levantar questões que, em retrospecto (o que é, para
nós, razoavelmente fácil fazer hoje), poderíamos
ousar determinar aquele momento específico como um estágio
‘imediatamente’ anterior ao que seria o grande salto –
que não veio; e que viria, de outra forma, não no mundo
árabe-islâmico (na época aquele que tinha todas
as condições para tal), mas no mundo cristão,
mais tarde, com o Renascimento e o Iluminismo.
Os campos do conhecimento a serviço da luta pelo poder
Ibn Hazm (994-1063), “o jurista de Córdoba”, considerado
o iniciador de um novo momento do pensamento árabe-islâmico,
defendia que “tudo que escapa ao domínio do Texto [o
Alcorão] é ilimitado, depende da liberdade do homem”,
deve ser deixado à sua razão e à sua livre escolha,
conforme escreveu al-Jabri em seu livro Introdução à
crítica da razão árabe.
Mas o que teria acontecido a um mundo tão pleno de potencialidades,
tão fértil, que o fizesse estacionar e permanecer nesse
estado de inércia séculos e séculos porvir? Precisaríamos
prolongar demais os questionamentos e temas aqui abordados, e esta
não é a finalidade deste artigo, que aspira apenas delinear
caminhos que poderão, noutro momento, ser percorridos pelo
leitor por sua própria conta e seu próprio sabor. Entretanto,
não seríamos honestos se não assinalássemos
alguns esclarecimentos, mesmo que, para tal, exista o risco de nos
limitar.
Assim como o que entendemos como mundo cristão, o mundo árabe-islâmico
é ricamente heterogêneo. As lutas políticas marcaram
e marcam fortemente esses mundos (quais são os mundos não
marcados por tais lutas?). E muitos dissídios, sejam eles na
esfera religiosa, como também em outras (científica,
jurídica, econômica etc.), são determinados por
decisões que envolvem lutas pelo poder. O próprio al-Jabri
admite que “a influência ideológica e a hegemonia
cultural constituem os meios de acesso privilegiados à dominação
secular”. Destarte, escolas de diferentes pensamentos e concepções
serviriam para legitimar certo grupo no poder, como igualmente atacar
grupos (e escolas) adversários.
No âmbito particular do mundo árabe-islâmico,
sem esquecermos toda a sua especificidade, aquelas escolas e aqueles
pensadores que em dado momento identificamos como o mais fértil
de toda a sua existência, e que defendiam o uso da razão
sem que esta se submetesse a uma tradição inapta para
fomentar o avanço do pensamento, fracassaram em seus projetos
de trazer ao mundo o seu próprio “Renascimento”
e “Iluminismo”.
Avicena seria “condenado” por um Avicena posterior de
discurso irracionalista, que sobreviveria como projeto de filosofia
persa (Irã), unindo-se à filosofia iluminista iraniana.
Cabe lembrar que dentro do mundo árabe-islâmico a rivalidade
entre “orientais” (o Irã é persa e não
árabe) e “ocidentais” (iraquianos, sírios,
entre outros) se mantém durante séculos.
A esperança de uma retomada da razão
A chegada de Averróis ao panorama mundial islâmico,
em al-Andalus, retomando e ultrapassando Ibn Hazm, enfrentando a capitulação
aviceniana e dedicando-se ao árduo trabalho de compreender
e interpretar a obra de Aristóteles foi, talvez, o ápice
do pensamento e da filosofia árabes, o legado que muitos defendem
hoje como caminho para se desfazer as vicissitudes que estagnaram
o mundo árabe-islâmico na Idade Média, tornando-os
prisioneiros de um passado “idealizado” e agentes ‘re-ativos’
num mundo ‘hiper-dimensionado’ que não compreendem
e que não os compreende (e que acaba por reduzi-los em arquétipos
gerais ou específicos – fundamentalistas e terroristas).
Segundo al-Jabri, deve-se recuperar o pensamento averroísta
tomando-lhe emprestada a capacidade de ruptura, o que significa romper
com o espírito gnóstico de Avicena. Diz ele:
Nós, árabes, vivemos, depois de Averróis, à
margem da história (na inércia e no declínio),
porque nos agarramos ao momento aviceniano (...) Os europeus, por
seu lado, viveram a história de que havíamos saído,
porque souberam apropriar-se de Averróis e viver até
hoje o momento averroísta.
Momento este que poderíamos definir de forma alegórica
como permanente processo (e projeto) de construção de
uma “cidade da razão”, ou seja, processo (e projeto)
de buscar submeter o maior número de pessoas possíveis
ao uso da razão, sendo esta o verdadeiro remédio contra
as trevas.
Espera-se, de tal modo, que o mundo árabe-islâmico contemporâneo
seja capaz de reencontrar o seu plano de construção
da “cidade da razão”, e que o Ocidente também
seja capaz de compreender e interpretar o mundo árabe-islâmico,
como fez Averróis com Aristóteles e os gregos, para
que tenhamos os caminhos do diálogo abertos entre esses dois
mundos tão próximos e tão distantes, tão
semelhantes e tão diferentes.
* Trechos biográficos de Avicena e Averróis retirados
do livro “Introdução à crítica da
razão árabe”, de Mohammed Abed al-Jabri, Editora
Unesp (1997).
Referências bibliográficas: “Introdução
à crítica da razão árabe”, de Mohammed
Abed al-Jabri, Editora Unesp (1997); “A doença do Islã”,
de Abdelwahab Meddeb, Editora UFMG (2003); “Iniciação
à história da filosofia – dos pré-socráticos
a Wittgenstein”, de Danilo Marcondes, Jorge Zahar Editor (2002).